Natal

Natal
Vinde, Senhor Jesus! Estamos ansiosos pela vossa chegada para proclamarmos de novo o nascimento do Filho de Deus Pai

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

O oximoro

«A única força capaz de conquistar o coração dos homens é a ternura de Deus. A debilidade omnipotente do amor divino» (Papa Francisco, 2016).
Qual a palavra, qual é ela, tão estranha, que não pertence à sua própria língua (já nasceu estrangeira) e não significa o que diz, nem o seu contrário?

Os gregos tinham a palavra «oxi», para significar agudo, vivo, atiçado («oxi» subsiste nas línguas modernas na raiz da palavra oxigénio) e tinham também a palavra «moros» como sinónimo de tonto. A inventiva que lhes faltou para juntar «oxi-moros» tiveram-na os latinos medievais, que cunharam o conceito de «vivaço tonto». A língua inglesa inspirou-se nesta conjunção impossível, popularizou-a e utilizou-a para designar as figuras de retórica baseadas na contradição. São oximoros as expressões «silêncio ensurdecedor» (em inglês, «thunderous silence» ou «deafening silence»), «mortos-vivos» (em inglês «living death» ou «walking dead») e várias das expressões bem-humoradas da tecnologia moderna, como «luz escura» («dark light») e «realidade virtual» («virtual reality»).

O Natal é a festa de combinações que ultrapassam a lógica humana e, por isso, perdemos-lhe o sabor quando o reduzimos a comércio, ou a ficção, ou promessa de êxito. O Natal é mais fascinante que o oximoro mais estranho, porque foi pensado pela mente de Deus e se tornou realidade graças ao seu poder.

Um colega da universidade estreou-se na carreira de investigação, ainda muito criança, com um estudo sobre a logística do Pai Natal. Partiu da suspeita de que era impossível um Pai Natal entregar presentes em todas as chaminés do mundo à meia-noite do mesmo dia e, com esse argumento, avançou para a desconfiança de que o Pai Natal não existia. Pegou num mapa, para confirmar a premissa, mas reparou: os fusos horários! Por causa dos fusos horários, o Pai Natal não teria de colocar os presentes simultaneamente em todas as chaminés, porque, ao longo de 24 horas, ia sendo meia-noite, gradualmente, na superfície do Planeta. Que felicidade, para uma criança, compreender o segredo da logística natalícia! Entretanto, a tal criancinha cresceu, a sua carreira científica evoluiu para outras áreas, mas não precisou de um doutoramento para descobrir que o Pai Natal, de facto, não existe. Não por uma questão técnica. Simplesmente, não existe. O Pai Natal não é uma contradição, é uma banalidade.

O Natal é diferente. Fala-nos do impossível aos homens, da vitória daquilo a que o Papa chamou a «debilidade omnipotente». Só Deus reconcilia extremos tão opostos e lhes dá sentido real.

Disse o Papa Francisco: «a única força capaz de conquistar o coração dos homens é a ternura de Deus. Aquilo que encanta e atrai, aquilo que dobra e vence, aquilo que abre e liberta das cadeias não é a força dos instrumentos ou a dureza da lei, mas a debilidade omnipotente do amor divino, que é a força irresistível da sua doçura e a promessa irreversível da sua misericórdia» (Fevereiro de 2016).

Se não fosse tão infinito, Deus não seria tão irresistível e tão amável. Por isso, no Natal, no contraste mais extremado, refulge tão profundamente a grandeza de Deus.

No longínquo 1937, em que o comunismo continuava aliado a Hitler (até Junho de 1941) e as forças russas, protegidas por este aliado aparentemente invencível, avançavam de vitória em vitória, Paul Vaillant-Couturier dava rédea solta à sua veia poética: «Somos a juventude ardente // que vem escalar o céu // num cortejo fraterno // unamos as mãos palpitantes // saibamos proteger o nosso pão // construiremos um amanhã que cante» («Nous sommes la jeunesse ardente // Qui vient escalader le ciel // Dans un cortège fraternel // Unissons nos mains frémissantes // Sachons protéger notre pain // Nous bâtirons un lendemain qui chante.» – Paul Vaillant-Couturier, Jeunesse, 1937). Esta poesia foi citada por tantos autores marxistas que a expressão «amanhãs que cantam» se tornou um lugar-comum.

A questão é saber quais são os amanhãs que cantam. Em 1937, Vaillant-Couturier estava eufórico com a anexação da Finlândia, a que se seguiria a dos países Bálticos e todos os outros avanços imparáveis do comunismo no Leste europeu. Passados somente 5 anos, um outro marxista, Gabriel Péri, morria às mãos dos nazis prometendo uma nova versão de amanhãs que cantam. E, depois dele, uma catadupa de amanhãs cantantes sucedeu-se na literatura e na política.

Um futuro melodioso não é um oximoro e qualquer DJ promete música. O Natal é mais radical que os DJs, marxistas ou burgueses. É uma mensagem tão acima de todo o cálculo humano que inverte os critérios do poder e da glória, e empalidece o brilho das armas. O coração humano fica desarmado perante a «debilidade omnipotente».

Aquele bebé nos braços da mãe convoca a humanidade a uma verdadeira revolução. Um Natal sem Jesus ao colo é só um Pai Natal burguês ou um DJ a prometer um amanhã marxista. A velha profecia de Isaías vaticinava esta revolução impossível aos homens: «O povo que andava nas trevas viu uma grande luz... porque um Menino nasceu para nós, um filho nos foi dado: (...) Deus forte, Príncipe da Paz». Um bebé que dorme nos braços da sua mãe é o Deus forte, o Príncipe da Paz: «O seu poder será engrandecido numa paz sem fim», dizia Isaías.

O oximoro por excelência torna-se realidade. «Porque nada é impossível a Deus», explicou o Anjo a Nossa Senhora. É quase simples. – Deus fez-Se carne e habitou entre nós.
José Maria C.S. André
18-XII-2016
Spe Deus

O valor do tempo livre

Chegam as férias escolares e os pais encontram-se com uma situação nova: os filhos passam a ter imenso tempo livre!

Por um lado é bom, porque isso lhes dá a oportunidade de realizar actividades não possíveis durante o tempo de aulas. Por outro é um risco, porque existe o perigo real de perder o tempo e destruir em poucos dias os hábitos de trabalho adquiridos durante o ano.

Que fazer?

Existem, na minha opinião, duas atitudes que se devem evitar. A primeira é não preocupar-se e deixar que os filhos façam tudo aquilo que lhes apeteça. É uma atitude populista mas muito perigosa. Pode “dinamitar” em pouco tempo todas as virtudes conquistadas com esforço durante o ano lectivo.

A segunda é encher esse tempo com actividades programadas pelos pais. É uma atitude que pode parecer eficaz, mas que priva os filhos de aprenderem uma lição indispensável na vida: que faço com o meu tempo livre?

Educar é sempre ajudar a usar bem a liberdade. E o tempo livre é, por definição, um tempo em que experimentamos que somos protagonistas da nossa vida. Podemos fazer o que quisermos. Temos o destino nas mãos.

Penso que a atitude correcta é saber programar com eles o seu tempo livre. Fazê-los reflectir: que fazer quando não tenho nada que me obrigue? Deixar-me levar pelo mais fácil? Será que é por aí o caminho da minha verdadeira felicidade?

Ensinar a aproveitar o dom do tempo livre é também uma escola para se aprender a ser agradecido e generoso. É uma oportunidade para viver a gratuitidade: dar sem esperar nada em troca. Para crescer na amizade. Para contemplar a beleza da Criação. Para dedicar tempo aos outros.
São atitudes que não parecem fundamentais para sobreviver, mas sem as quais tudo o que fazemos perde o seu sentido.

Pe. Rodrigo Lynce de Faria

Carta ao Menino Jesus

Querido Menino Jesus,

Pedimos-Te sobretudo pelo Papa Francisco e pelo seu Pontificado, mas queremos continuar a pedir-Te pelo nosso tão amado Papa Emérito Bento XVI.

Não Te vou esconder o grande amor que tinha e tenho por Joseph Ratzinger, mas na Tua condição Divina sabes bem, que também amo Jorge Bergoglio para quem Te rogo todas as graças e proteção. O seu pontificado tem tido muitos momentos vibrantes interpelando-nos permanentemente no nosso comodismo de cristãos pecadores tantas vezes desatentos. Dirige-nos sempre para Ti e para os mais carenciados que nos faz ver que são o Teu reflexo aqui na terra, tem vindo a renovar as estruturas da Igreja, sendo que algumas são mal aceites, como se a Tua Igreja ao longo da história não tivesse evoluído e adaptado às realidades do seu tempo. Também é verdade, que muitos se sentem desorientados com algumas das suas visões para os problemas concretos dos cristãos e que dão azo a interpretações nem sempre claras.

Perdoa-me, querido Menino Jesus, se esta carta não obedece aos parâmetros habituais, nem está escrita com aquele espírito de criança que tanto aprecias, mas o meu amor à Casa do Pai traz-me preocupado com a unidade da Tua Igreja e o receio que lhe façam mal dividindo-a sem pensar em Ti, ainda assim rogo-Te que a defendas e que o Espírito Santo a guie, ilumine e proteja.

“Last but not least” queria agradecer-Te, por manteres bem de saúde e em oração por Francisco e pela Igreja, o Papa Emérito, de quem vimos imagens há dias e das quais transparece apesar dos seus noventa anos estar bem apesar de algumas dificuldades físicas.

Obrigado por me concederes a vontade de Te escrever e de Te poder dizer por escrito que Te amo na Santíssima Trindade acima de todas as coisas, ao testemunhá-lo só ambiciono o Teu louvor, a proteção de Jorge Mario e Joseph manifestando-Te a minha filial gratidão.

Estamos a poucos dias do Teu Natal e ansiamos por Te acolher no Presépio e no nosso coração.

Um beijo de profundo amor e devoção,

João Paulo Reis

Expectação da Virgem Santa Maria (Nossa Senhora do Ó)

Esta festa, conhecida entre o povo português como de Nossa Senhora do Ó, celebra o desejo de Maria, o desejo de milhares de gerações que suspiraram, que suspiram pela vinda do Messias.

Não é só a ansiedade natural da mãe jovem que espera o seu primogénito; é o desejo sobrenatural da "bendita entre todas as mulheres", que foi escolhida para Mãe do Salvador de cada homem e de toda a humanidade. O Filho que vai nascer não vem simplesmente para beijar e sorrir para a Sua Mãe, mas para resgatar o povo com o Seu Sangue.

Por estes dias, a Igreja canta as chamadas "antífonas maiores", que começam todas pela interjeição Ó. Maria, Senhora do Ó, é o modelo e a inspiradora deste louvor alegre e suplicante; ela é o centro dos desejos do povo de Israel e de todo o povo de Deus que, no fundo do seu coração, vive o advento do Salvador.

cf. Santos de Cada Dia, do Pe. José Leite

(Fonte: Evangelho Quotidiano)

O Evangelho do dia 18 de dezembro de 2017

A geração de Jesus Cristo foi deste modo: Estando Maria, Sua mãe, desposada com José, antes de coabitarem achou-se ter concebido por obra do Espírito Santo. José, seu esposo, sendo justo, e não querendo expô-la a difamação, resolveu repudiá-la secretamente. Pensando ele estas coisas, eis que um anjo do Senhor lhe apareceu em sonhos, e lhe disse: «José, filho de David, não temas receber em tua casa Maria, tua esposa, porque o que nela foi concebido é obra do Espírito Santo. Dará à luz um filho, ao qual porás o nome de Jesus, porque Ele salvará o Seu povo dos seus pecados». Tudo isto aconteceu para que se cumprisse o que foi dito pelo Senhor por meio do profeta que diz: “Eis que a Virgem conceberá e dará à luz um filho, e Lhe porão o nome de Emanuel, que significa: Deus connosco”. Ao despertar José do sono, fez como lhe tinha mandado o anjo do Senhor, e recebeu em sua casa Maria, sua esposa.

Mt 1, 18-24

domingo, 17 de dezembro de 2017

Deixa-o exigir-te!

Deus quer-nos infinitamente mais do que tu próprio te queres... Deixa-o, pois, exigir-te! (Forja, 813)

O Senhor conhece as nossas limitações, o nosso individualismo e a nossa ambição: a dificuldade em nos conhecermos a nós mesmos e de nos entregarmos aos outros. Sabe o que é não encontrar amor e verificar que mesmo aqueles que dizem segui-Lo o fazem só a meias. Recordai as cenas tremendas que os evangelistas nos descrevem e em que vemos os apóstolos ainda cheios de aspirações temporais e de projectos exclusivamente humanos. Mas Jesus escolheu-os, mantém-nos juntos de Si e confia-lhes a missão que recebeu do Pai.

Também a nós nos chama e nos pergunta como a Tiago e João: Potestis bibere calicem quem ego bibiturus sum?; estais dispostos a beber o cálice (este cálice da completa entrega ao cumprimento da vontade do Pai) que eu vou beber? "Possumus"!. Sim, estamos dispostos! – é a resposta de João e Tiago... Vós e eu, estamos dispostos seriamente a cumprir, em tudo, a vontade do nosso Pai, Deus? Como em relação a qualquer outro aspecto da sua vida, nunca deveríamos contemplar esses anos ocultos de Jesus sem nos sentirmos afectados, sem os reconhecermos como aquilo que são: chamamentos que o Senhor nos dirige para sairmos do nosso egoísmo, do nosso comodismo. (Cristo que passa, 14-15)

São Josemaría Escrivá

São Josemaría Escrivá nesta data em 1937

Anota: “Às cinco e meia em ponto (hora marcada ontem à noite), sou acordado pelo meu Relojoeirinho: o despertador, que nos emprestaram na pensão, não tocou”. Chama ao seu Anjo da Guarda “relojoeirinho”, porque quando o seu despertador se avariava, como não tinha dinheiro para mandá-lo consertar, recorria ao seu Anjo da Guarda para que o acordasse.

Bom Domingo do Senhor!

Saibamos ter a entrega e o desprendimento de S. João Baptista de que nos fala o Evangelho de hoje (Jo 1, 6-8. 19-28) entregando nas nossas acções toda a glória a Jesus Cristo Nosso Senhor sem jamais buscarmos reconhecimentos pessoais, remetendo com amor e humildade tudo para Ele.

Louvado seja para todo o sempre o Verbo que se fez homem e habitou entre nós!

Olá!

Duas ou três letras, uma palavra... quantas coisas se evocam numa saudação!
À saída da ponte Milvio, onde arrancam a via Cassia e a via Flaminia, duas «auto-estradas» da época romana que saem de Roma para Norte, levanta-se uma inscrição monumental, inspirada na saudação que as legiões que desciam da Gália dirigiam às que saíam de Roma a caminho do campo de batalha: «Victores – victuri», os «victores» (os vencedores, os que vêm de vencer) aos «victuri» (os que vão vencer). Como o complemento indirecto não está explícito, a saudação também se pode ler no sentido de «os vencedores hão-de [continuar a] vencer». Como é fácil comemorar louros de vitória!

Os peregrinos de Santiago trocavam uma saudação mais profunda: «Ultreia»!, «Suseia!». A exclamação «ultreia», composta de «ultra-eia!», era um incitamento a continuar adiante. A resposta «suseia», de «sus-eia!», era o estímulo para continuar a subir: «para cima! ânimo!». Ambas as expressões davam um alcance espiritual à peregrinação, porque aquele caminho significava progredir na vida espiritual, crescer no amor de Deus, subir. A letra de um cantar medieval dizia «Ultreia et suseia, Deus adiuva nos!»: eia, além e para cima, que Deus ajuda.

Os Cursilhos de Cristandade recuperaram a palavra «ultreia» e tornaram-na conhecida.

Os judeus saúdam-se com a palavra «shalom!», paz. Quanta falta faz! Os árabes, cuja língua é muito próxima, também se cumprimentam assim. Quanta falta faz!

Outra saudação curiosa é a expressão «escravo», que soa «tchau!» no dialecto veneziano e os italianos escrevem «ciao». Esta saudação tinha o seu quê de humorístico e podia significar «sou um escravo, às ordens», ou uma provocação brincalhona. Os italianos acharam-lhe piada e o «ciao!» espalhou-se pelo mundo, sem que ninguém se lembre da origem etimológica.

Decorreram, no passado dia 3 de Dezembro, os 25 anos da primeira SMS. A mensagem, enviada a 3 de Dezembro de 1992 pelo Eng. Neil Papworth, no Reino Unido, para o seu colega Richard Jarvis, dizia: «Merry Christmas» (Feliz Natal).

Talvez venha a propósito eu aproveitar a deixa e saudar os leitores: Feliz Natal!
José Maria C.S. André
17-XII-2017
Spe Deus

Bilhete de aniversário ao Santo Padre

Querido Papa Francisco,

Hoje como aliás faço todos os dias peço ao Senhor por ti, pela tua saúde e segurança, e sobretudo pelo teu Pontificado.

Já são oitenta e uma primaveras como usamos dizer por cá e às vezes vejo-te com um ar de muito cansado e fico preocupado, peço-te com todo o carinho que te poupes, salvo se achares que o Senhor te lo pede e então sei que serias incapaz de Lhe negar fosse o que fosse.

Resguarda-te nas palavras para evitar seres mal interpretado, eu próprio já fui vítima disso e quando as leio ou ouço com atenção às vezes vejo que fui precipitado no meu juízo, outras, ainda que procure entender a intenção, parecem-me demasiado generalistas nas acusações e certamente que magoarão muitos. Peço a Deus todos os dias e várias vezes ao dia que te proteja dos ‘yes man’ que te bajulam e que nunca serão capazes de com amor e amizade praticar a correção fraterna que o Senhor nos recomendou. Eu, por mim, peço-te ainda, que me desculpes pelas vezes que te interpretei mal e que não me leves a mal este abrir de alma de um simples cristão que ama a Jesus, à Sua Igreja e ao Seu vicário na terra.

Com humildade peço-te a bênção e abraço-te fraternalmente pedindo a Deus que te cubra de todas as graças,

João Paulo Reis

«Happy birthday to you!...» (2014)

A liturgia da Igreja prevê que o «sprint» final que antecede o Natal comece no dia 17 de Dezembro, mas no actual pontificado esse dia tem mais qualquer coisa: faz anos o Papa Francisco. Poderia parecer pouco importante, soprar as velas (78* velas) e cortar umas fatias de bolo, mas é uma coisa muito séria. * 80 em 2016

À primeira vista, o Evangelho da Missa do dia 17, que marca o «sprint» de preparação para o Natal, não se parece com a partida para uma corrida de velocidade. Julgamos mesmo que S. Mateus perde tempo com uma lengalenga interminável: «Abraão gerou Isaac, Isaac gerou Jacob, Jacob gerou…» e lá vão catorze gerações de personagens estranhos, e mais catorze gerações de uma genealogia ainda mais incompreensível, e mais outras catorze gerações… até concluir finalmente em «José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus». É raro o Evangelho da Missa ser tão comprido e, sobretudo, nenhum outro tem tantos personagens e tão pouco argumento. Poderia suspeitar-se que o Evangelho do dia 17 de Dezembro está em competição renhida com a lista telefónica.

De facto, à primeira vista, é um relatório cansativo. Só Deus parece interessado em cada um daqueles homens e mulheres e conhece o sentido das suas vidas. Por isso, lido no dia 17 de Dezembro, no começo do «sprint» do Natal, aquela lista tem sabor a um sinal de partida pouco incisivo. Ou talvez não.

A surpreendente mensagem de S. Mateus é que Deus se fez Homem e quis misturar-se connosco. Quis ter antepassados, quis nascer numa família e quis rodear-se de pessoas. Mais tarde, quando começou a sua vida pública, Cristo aparece sempre rodeado dos seus discípulos. Podia dispensá-los, mas convoca-os. Atrapalham um pouco, mas quere-os junto a si. Viver acompanhado foi uma opção pessoal tão forte, que se transformou num programa para o mundo: Cristo quer chegar a todos os povos através de uma corrente de pessoas.

Em consequência, Simão ficou «Pedro», isto é, «rocha», porque Cristo o colocou como elo entre nós e Deus, fundamento sobre o qual assentaria a sua Igreja. Nem Pedro compreendeu o mistério. Nem dava para perceber: todos conhecem os inconvenientes de contar com a colaboração de seres humanos; porque é que Deus conta com eles?! Porque é que Deus chamou Pedro? Em vez de uma comunicação directa, eficiente, Deus fala connosco através de um intermediário. Que processo mais complicado, sob todos os pontos de vista! A fraqueza humana não tem limites e a tarefa exige, com alguma frequência, arriscar a vida. Nenhum homem pensaria num sistema tão complexo, mas Cristo não tem só uma inteligência humana, de modo que foi mesmo assim que estabeleceu a sua Igreja.

«Abraão gerou Isaac, Isaac gerou Jacob»… geração após geração, Deus não saltou nenhum elo na cadeia que o liga às raízes da humanidade. Analogamente, nós, como diz uma oração habitual da Missa, «em comunhão com toda a Igreja, veneramos a memória da gloriosa sempre Virgem Maria (…), a de S. José, seu esposo, e a dos bem-aventurados Apóstolos e Mártires Pedro, (…) Lino, Cleto, Clemente…». A lista dos Papas, que começa com Pedro e continua com Lino, Cleto, Clemente… prolonga-se pelos séculos, geração após geração, até …João Paulo, Bento e Francisco.

É este Francisco, escolhido por Deus para governar a Igreja, que soprou as velas do bolo no dia 17 de Dezembro. Ele podia não ser importante para a nossa relação com Deus, mas Cristo quis que fosse indispensável.

José Maria C.S. André 
Spe Deus
21-XII-2014

«No meio de vós está Aquele que não conheceis: é Ele quem vem após mim»

Como é lógico, é o evangelista João quem introduz João Baptista no seu discurso sobre Deus, «o abismo que atrai o abismo» à voz dos mistérios divinos (Sl 41, 8): o evangelista conta a história do precursor. Aquele que recebeu a graça de conhecer «o Verbo no princípio» (Jo 1, 1) ensina-nos acerca daquele que recebeu a graça de vir à frente do Verbo encarnado. [...] Ele não diz simplesmente: houve um enviado de Deus, mas «houve um homem». Fala assim para distinguir o precursor, que participa apenas da humanidade, e o Homem que, unindo estreitamente em si divindade e humanidade, veio em seguida; para separar o voz que passa e o Verbo que permanece para sempre de maneira imutável; para sugerir que um é a estrela da manhã que aparece na aurora do Reino dos céus e declarar que o Outro é o Sol da justiça que lhe sucede (Ml 3, 20). Distingue a testemunha Daquele que o envia, a lâmpada vacilante da luz esplêndida que enche o universo (cf. Jo 5, 35) e que, para todo o género humano, dissipa as trevas da morte e do pecado. [...]

«Um homem foi enviado». Por quem? Pelo Deus Verbo que o precedeu. A sua missão era ser precursor. É num grito que ele envia a palavra à sua frente: «no deserto, uma voz grita» (Mt 3, 3). O mensageiro prepara a vinda do Senhor. «O seu nome era João» (Jo 1, 6): foi-lhe dada a graça de ser o precursor do Rei dos reis, o revelador do Verbo desconhecido, o que baptiza em ordem ao nascimento espiritual, a testemunha da luz eterna, pela sua palavra e pelo seu martírio. 

João Escoto Erigena (?- c. 870), beneditino irlandês
Homilia sobre o Prólogo de João, cap. 15